Crítica: O Abrigo (Take Shelter – 2011)

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Lembro de ter visto ‘O Abrigo’ logo após ele ter ganho prêmio da semana da crítica no Festival de Cannes de 2011. Fiquei fascinado. Recentemente descobri que ele está no catálogo do Netflix, então resolvi rever e falar sobre ele aqui, para que mais gente conheça essa obra excepcional.

Curtis (Michael Shannon, o general Zod de Man of Steel), leva uma vida tranquila com sua família em uma pequena cidade de Ohio. Ele tem uma esposa bela e companheira, uma filha linda, um bom emprego em uma empresa de mineração. Como seu próprio colega de firma diz: “um vidão”. Pelo menos até começar a ser atormentado por pesadelos vívidos e perturbadores. Neles ele se vê sendo atacado por pessoas próximas, além de presenciar a chegada de uma tempestade colossal, o que acende um obsessivo interesse em reformar seu abrigo para tempestades que existe no quintal. A partir daí, ele terá que decidir se salva sua família da tempestade terrível com a qual tem sonhado, ou se a salva dele próprio e de sua louca obsessão em relação a isso.

O diretor Jeff Nichols realiza aqui um brilhante estudo de personagem, que se torna ainda mais intenso graças a interpretação soberba de Michael Shannon. O ator consegue construir um personagem que sai da simplicidade e calmaria, condizentes com o ambiente em que vive, para alguém que começa a ruir dada a instabilidade mental e a impossibilidade que tem em controlar os seus medos e seu desespero. Sua angústia é passada ao espectador, a transição da figura do pai de família padrão, para alguém distante, com expressão dura e perturbada, acontece de maneira extremamente sólida.

Sua companheira de cena, a talentosíssima Jessica Chastain, está perfeita no papel de mãe de família dedicada. Ela transmite a preocupação com as mudanças do marido e traz a tona o seu conflito interno, onde a vontade de ajudar bate de frente ao sentimento de impotência diante dos problemas sérios que ele aparenta ter. A química entre o casal também merece aplausos, a relação e o distanciamento dos dois é palpável o suficiente para mexer com o espectador.

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O desenvolvimento da trama se dá sem nenhuma pressa, o que pode incomodar os mais impacientes. A narrativa caminha devagar, elevando o valor de cada cena, já que todas tem relevância para a construção da história. Cada informação adquirida será de suma importância na hora de lidar com o impactante desfecho. O histórico de esquizofrenia na família de Curtis, a alta incidência de tornados e tempestades na região. Tudo contribui para a dubiedade que acomete o filme. Usando de uma estratégia similar a de ‘O Exorcismo de Emily Rose’, ficamos na dúvida se Curtis está sofrendo de algum distúrbio psicológico, ou se realmente seus sonhos são presságios de um acontecimento terrível.

Tecnicamente o filme também vai bem, uma fotografia simples e realista, uma trilha sonora bem colocada e uma montagem fluída, que faz muito bem ao corroborar com a dúvida, nunca deixando claro o que é real e o que é alucinação.


 Spoilers nesse parágrafo, pule para o último.

Eu citei a dúvida, a dubiedade e o desfecho impactante, pois é, o final é “aberto” e deixa dever de casa para o público. Explicarei brevemente a minha interpretação da história: O personagem de Shannon herdou a esquizofrenia de sua mãe. A tempestade dos seus sonhos é a manifestação da doença, e seu abrigo anti-tornados não o protegerá dela. Quando ela chegar será devastadora, afetará a si mesmo, seus amigos e principalmente, sua família. E na última cena, depois de diagnosticado, é que sua família também começa a ver a tempestade se aproximando. Um sinal de que agora todos eles sabem que dias difíceis virão.

 Fim dos spoilers.


Enfim, ‘O Abrigo’ é um filmaço. Tecnicamente preciso, com um casal de protagonistas excepcional e uma riqueza ímpar no que diz respeito ao seu significado. Foi boicotado pelo marketing errado, que vendeu o filme como uma espécie de suspense pós-apocalíptico ou de destruição. Saiba que não se trata disso, mas sim de um excelente drama psicológico, com toques de suspense e até horror. Recomendadíssimo.

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