Crítica: Ninho de Musaranho (Musarañas / Shrew’s Nest)

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Poucos países tem mandado tão bem no gênero suspense quanto a Espanha. Histórias tensas que compensam com um roteiro inteligente e bem escrito as limitações orçamentárias tem se tornado lugar comum nas novidades espanholas. ‘Ninho de Musaranho’, que fez barulho nos grandes festivais, confirma a ótima fase desse cinema.

A história se passa em Madri em meados da década de 50, onde Montse (Macarena Gómez), divide o apartamento com sua irmã mais nova (Nadia de Santiago), que fora criada por ela, já que a mãe morreu durante o parto e o pai nunca retornou da guerra. Montse sofre de agorafobia, o que faz com que ela nunca saia de dentro do apartamento, tendo em sua irmã e em seu trabalho esporádico como costureira, a única conexão com o mundo externo. As coisas começam a mudar quando um vizinho sofre um acidente nas escadarias do prédio e pede ajuda a Montse, que o acolhe, mas começa a nutrir uma estranha relação com o recém chegado, o que desencadeará uma série de acontecimentos bizarros e revelações obscuras.

Esteban Roel e Juanfer Andrés são estreantes na direção de longa-metragens, e é surpreendente a segurança com a qual eles conduzem a narrativa, mesclando momentos de drama familiar com o mais absoluto terror psicológico. Musaranhos, como bem explicado durante o filme, são pequenos roedores conhecidos por viverem em ninhos bem escondidos e pela ferocidade, mesmo sendo bem pequenos. Uma analogia bem clara para as personagens principais desse filme, que nos apresenta de maneira brutal o reflexo negativo que um trauma traz para a vida de algumas pessoas. Na verdade não apenas um trauma, vários traumas. Violência doméstica, machismo, perda da infância, combinados a um incessante fanatismo religioso que converge em surtos de violência, inspirado por sentimentos de posse e instintos super-protetores.

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O desenrolar da trama vai evocar imediatamente outro filmaço desse gênero: ‘Louca Obsessão’ (Misery), baseado em um livro de Stephen King e estrelado por Kathy Bates. Temos um refém e alguém obcecado aqui, apesar das diferentes motivações e de elementos que não existem no clássico, como a figura da irmã mais nova por exemplo, que pode incomodar um pouco pela passividade frente a situação, mas que também é reflexo dos traumas de sua irmã mais velha. Outra semelhança entre as obras é a atuação colossal da protagonista. Macarena Gómez dá o tom certo a loucura de Montse, construindo seus maneirismos e trejeitos de maneira assustadoramente convincente. O restante do elenco fica escondido perto de seu desempenho, mas ninguém compromete a obra.

O filme tem alguns problemas, é verdade, como o excesso de reviravoltas quando a trama se aproxima do final. Algumas informações grandes soam bem desnecessárias se observadas de um escopo maior. A trilha se perde um pouco nos maneirismos do gênero, tentando manipular de maneira muito clara a expectativa de quem assiste. Mas existem outros méritos, como a claustrofobia causada pela permanência em apenas um cenário, além da boa construção desse cenário, com os símbolos religiosos entre outros detalhes.

No ato final o filme vira totalmente a chave para o terror, além de imprimir um ritmo frenético rumo ao impactante desfecho. Com uma violência bem colocada, gore na medida certa e uma trama instigante que prende o espectador na tela, ‘Ninho de Musaranho’ é um filme imperdível. Tem no Netflix!

Nota: 8,5

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