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Andrew Niccol é um cara de boas ideias. Mesmo que atinja resultados variados, seus filmes são originais em suas propostas e Morte Limpa não foge a essa regra. Aqui ele, mesmo com uma derrapada ou outra, levanta os dilemas que envolvem os novos cenários de guerra.

A trama acompanha o major Tommy Egan (Ethan Hawke), um oficial da Força Aérea americana que depois de anos pilotando caças na guerra ao terror, agora é encarregado de dirigir ataques aéreos por drones na guerra no Afeganistão. Mas essa guerra é diferente, bombardeando talibãs de dentro de uma sala com ar condicionado e podendo voltar para o conforto de sua casa em Las Vegas, onde vive com sua esposa (January Jones) e dois filhos. Essa rotina acaba minando as forças de Tommy e a cada missão ele começa a se sentir mal pelos seus atos, além de ver suas relações familiares se deteriorarem cada vez mais.

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O filme de Niccol apresenta uma ambivalência temática bastante interessante, ele trata da adrenalina do combate que vicia os soldados, em um movimento parecido com o do filme Guerra ao Terror, colocando o personagem de Hawke em uma espécie de abstinência desse combate incessante, e mostrando como essa “reabilitação forçada” acaba destruindo os laços familiares do major. Mas o foco não é exatamente esse, o roteiro de Niccol se dedica a problematizar o ciclo vicioso inquebrável que envolve os esforços de combate ao terrorismo, na chamada guerra ao terror. Os questionamentos sobre a moralidade e a ética que envolve os atos militares americanos se espalham pelo roteiro, com justificativas práticas, mas não tão convincentes justamente na intenção de nos fazer pensar sobre essa loucura toda.

O personagem de Hawke também apresenta a dificuldade de lidar com a guerra como rotina, agora que ele não vai diretamente ao campo de batalha é difícil ter a noção de “virada de chave” entre estar na guerra e estar em território pacifico. Todas essas variações de tema estão aliadas a uma execução muito interessante, com ritmo cadenciado o diretor constrói bem a sensação de rotina, botando seus protagonistas em uma situação claustrofóbica e incomoda, onde se veem de mãos atadas perante as atrocidades que são obrigados a cometer em nome de uma falsa sensação de segurança. Um ótimo trabalho de direção.

Ethan Hawke está excelente no papel, em uma atuação mais introspectiva, minimalista, que transmite as nuances e perturbações com movimentos calculados e olhares cheios de significado. January Jones, Bruce Greenwood, Jake Abel e Zoë Kravitz estão bem, apesar de bem discretos em seus papeis.

Infelizmente Morte Limpa erra feio na sua conclusão, quase desperdiçando a totalidade da obra, ao oferecer um desfecho redentor extremamente inadequado a história, traindo suas reflexões e questionamentos. É algo que pesa muito e mexe com a avaliação do filme como um todo, transformando em um projeto ideologicamente estranho. Ainda assim, Morte Limpa merece ser visto, graças a sua execução bem estruturada e críticas levantadas nos dois primeiros atos. É só tentar abstrair o final.

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