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Desde suas primeiras exibições em festivais ao redor do mundo, Love, novo filme do sempre provocativo Gaspar Noé, causou alvoroço por motivos que iam além da qualidade, ou falta de, da obra em questão. Segundo o próprio diretor, o longa trazia uma história de amor vista sob o ponto de vista da relação sexual, mas para os veículos mais sensacionalistas e puritanos isso pouco importava, as manchetes apresentavam o projeto de Noé como o filme com “sexo explicito em 3D” ou o famigerado “porno cult”. Mais uma vez foi muito barulho por nada.

A história acompanha Murphy (Karl Glusman), um jovem que vive um casamento infeliz, quando recebe a ligação da mãe de Electra (Aomi Muyock), uma ex-namorada com quem viveu momentos muito intensos, e que segundo a mãe, está desaparecida há alguns meses. Sob a desconfiança de que ela pode ter se suicidado, Murphy começa a revisitar o passado, passeando entre remorso e rancor, enquanto o espectador começa a entender a relação entre os dois e como ela influenciou na vida do rapaz.

Love é um filme essencialmente petulante, além de parecer um exercício de narcisismo de seu diretor. Projetando-se no protagonista a todo instante, fazendo dele um jovem cineasta fã de Stanley Kubrick, mas que tem objetivos artísticos completamente distantes do seu ídolo, Murphy questiona as convenções cinematográficas e demostra a pretensão de fazer algo que consiga entrelaçar verdadeiramente a relação entre o sexo e o amor. Exatamente a pretensão declarada de Noé com Love, e apesar do tom metalinguístico, isso soa mais como arrogância tendo em vista que isso não é inovador como os diálogos fazem parecer. Isso sem falar no excesso de autorreferencia artística e pessoal que o cineasta insere no longa.

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Verdade seja dita, há alguns méritos em Love. A escolha por contar a história de forma não linear, ainda que soe confusa no inicio, se mostra acertada quando começamos a organizar os acontecimentos e encadear os fatos, além de contribuir na inserção orgânica das cenas de sexo explícito. Cenas que, por si só, atingem o objetivo do diretor. Existe sim uma carga emocional palpável no sexo apresentado aqui, graças aos enquadramentos utilizados, além da boa química dos atores. Sem ângulos berrantes, nem acelerações mecânicas, essas sequências conseguem passar a fundamentação amorosa por trás do ato sexual. Outro grande acerto está na fotografia do longa, que trabalha com filtros e cores para situar temporal e emocionalmente as cenas.

Não há o mesmo cuidado na edição do filme. Os takes são longos demais, o diretor utiliza um recurso de cortes com meio segundo de tela preta que é injustificável, especialmente por que esses cortes não avançam o andamento da história. Até por que não há muita história para avançar, a trama se resume a um casal que transa, briga e vez ou outra para pra filosofar sobre o nada. Um casal que, graças a fraqueza do elenco, não funciona fora a cama. E isso se repete mecanicamente por mais de duas horas, tornando a experiência toda enfadonha.

Enfim, Love tem um elenco fraco, um texto pretensioso e um andamento repetitivo e enfadonho. Atinge dez por cento de seu potencial, graças a boa execução das tão faladas cenas de sexo, que realmente conseguem transmitir a emoção por trás do ato. Não é inovador, nem transgressor, aliás, é o filme mais dócil desse diretor. Foi vendido pelo sexo, prometeu ser sobre o amor e acabou sendo, essencialmente, sobre DRs.   

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