Imagine um mundo onde é proibido ser solteiro. As pessoas solteiras são enviadas a uma espécie de resort, onde tem 45 dias para encontrar novos parceiros. Caso não obtenham sucesso em encontrar alguém, essas pessoas serão transformadas em um animal de sua escolha e em seguida serão soltas na natureza. É nesta distopia maluca que conhecemos David (Colin Farrell), que acaba de sair de um relacionamento e ser mandado para este hotel, onde avaliará suas chances de formar um par com personagens como a Mulher com Nariz que Sangra (Jessica Barden), a Mulher dos Biscoitos (Ashley Jensen) ou a Mulher Sem Coração (Angeliki Papoulia).

Será que Tom Jobim estava completamente certo e é impossível ser feliz sozinho? E num relacionamento, basta compatibilidade para dar certo? Um “match” é o suficiente para manter um casal? Essas são apenas algumas das reflexões que o novo filme de Yorgos Lanthimos nos traz. Com ares de fábula, o diretor grego constrói sua distopia que é absurda em termos práticos, mas absolutamente palpável no que diz respeito ás cobranças e obrigações que o individuo tem perante uma sociedade essencialmente normativa. Nesse mundo de prazos e regras, a pressão externa é a mãe da insegurança, que torna obrigatório ter alguém para preencher um vazio que muitas vezes nem é real. Isso torna as relações cada vez mais superficiais, movidas a conveniências e compatibilidades artificiais.

lobster2-xlarge

Nesse mundo até mesmo a liberdade é uma ilusão. A pretensa autonomia é cerceada por mais imposições, mais limitações e regras. Será que o filme é tão distópico assim? Mesmo em suas piadas mais ácidas, como quando se empurra uma criança para ajudar a resolver os problemas do casal, ou quando se encena situações em que estar acompanhado é melhor do que estar sozinho, deixando clara a redução do parceiro a um simples acessório. Lanthimos nos faz pensar até onde as pessoas vão para se adequar aos padrões exigidos e com isso nos mostra como as relações interpessoais estão cada vez mais mecânicas e carentes de sentimentos verdadeiros.

A maior parte do elenco é apenas funcional aqui, apenas a dupla de protagonistas se destaca. Colin Farrell confirma que 2015 foi seu ano de recuperação, em uma atuação contida, mas cheia de nuances significativas. Rachel Weisz, por sua vez, funciona melhor enquanto narradora ativa na história, do que quando personagem na tela. O filme tem uma fotografia estéril, com cores frias e conta com uma trilha sonora bastante melancólica, reforçando a aura tristonha dessa obra.

Enfim, The Lobster mistura romance com humor negro, resultando em uma obra estranha e muito peculiar, tanto em proposta quanto em estrutura. Traz metáforas relevantes e um final dúbio, aberto a mais reflexões. Um dos melhores filmes de 2015.

0 Total Views 0 Views Today
Avaliação.
Excelente

Vinicius Salazar

Co-criador e palpiteiro do TaxiCafe. Editor do Podcast Chutão.

More Posts

Follow Me:
TwitterFacebook

Deixe seu comentário:


Faça parte

Está no seu momento de descanso né? Entao clique aqui! À toa na Net - Agregador de Conteúdo
Total