Em 1997, os irmãos Cohen dirigiram um dos melhores filmes da década de 90, que também é um dos melhores filmes de sua carreira, ‘Fargo’. Logo nos créditos iniciais nos é passada a informação de que o longa é baseado em fatos. Posteriormente descobrimos que não era bem assim, de fato alguns dos acontecimentos do longa foram baseados em relatos verídicos, mas não em uma história completa, várias histórias e vários casos aleatórios foram compilados e montados em forma de roteiro.

Dezessete anos depois, outra dupla de irmãos resolve contar uma história que conversa de maneira curiosa com o filme de 97. Nathan e David Zellner nos apresentam Kumiko (Rinko Kikuchi), uma mulher que vive uma vida aparentemente comum na cidade de Tóquio. Ela trabalha como uma espécie de secretária em uma grande empresa, mas convive com a constante cobrança de sua mãe e de seu chefe para que arrume um marido, “pois todas as moças de sua idade já tem”. Essa é a última coisa que passa por sua cabeça, já que ela não tem o menor apreço por interações sociais. Para fugir dessa espiral de cobranças e infelicidade, Kumiko se dedica a uma curiosa missão: encontrar o tesouro escondido pelo personagem de Steve Buscemi no filme Fargo, cuja história ela acredita ser real.

É bom dizer que as referências ao filme ‘Fargo’ são só as cerejas do bolo oferecido por esse filme. Transitando de maneira elegante entre momentos cômicos, ares de road movie e doses fortes de drama existencialista, Kumiko nos entrega uma gama variada e eficiente de sabores e sensações. O longa praticamente se divide em duas partes, a primeira em Tóquio, mas não na megametrópole cheia de luz e vida que costumamos ver nos filmes ocidentais. Uma Tóquio periférica, de apartamentos pequenos e bagunçados e ruas frias. A segunda já nos EUA, onde praticamente somos inseridos em um filme dos Irmãos Coen, com seu humor e aparições de personagens típicos de suas obras.

Kumiko-the-Treasure-Hunter

A riqueza do roteiro escrito pelos irmãos Zellner consiste em apresentar um estudo de personagem sem fazer juízo de valor, nem ser condescendente com o mesmo. Eles não expõe claramente a “verdade” sobre nossa pitoresca protagonista. Ela aparentemente sabe que ‘Fargo’ é um filme, mas ainda assim acredita piamente na existência do tesouro. Seria isso uma prova de total ingenuidade e credulidade da personagem? Seria a maneira lúdica que ela encontrou de fugir de sua realidade sem nenhuma perspectiva? Ou seria tudo um delírio da nossa querida e sofrida personagem, que dá mostras de uma certa instabilidade mental? Essa dúvida torna a obra ainda mais relevante e cheia de significados.

Kumiko é uma obra e tanto. De maneira simples ela fala sobre solidão, tristeza, depressão, fuga da realidade e pressão social. Trabalha com o mal da incomunicabilidade e da criação de expectativas. E junta tudo isso para mostrar uma dolorosa busca por felicidade. Tem um trabalho de fotografia excepcional, bem como sua trilha sonora, que trabalham para tornar o conjunto da obra ainda mais fascinante.


Este parágrafo falará sobre a história que inspirou o filme e pode conter spoilers.


Assim como ‘Fargo’ tinha sido supostamente inspirado em fatos reais, ‘Kumiko’ também foi. Se ‘Fargo’, como eu expliquei, criou uma história fictícia em cima de relatos reais aleatórios, ‘Kumiko’ se baseou na lenda urbana que foi criada em volta de uma história real. Contarei um pouco dela para vocês: A Kumiko da vida real, na verdade se chamava Takako Konishi, uma japonesa de 28 anos que foi encontrada morta na neve em novembro de 2001, em Detroit Lakes. Graças a um equívoco cometido por um policial, aliado ao sensacionalismo da mídia local, foi amplamente veiculada a informação de que ela teria morrido de frio enquanto procurava o tesouro do filme ‘Fargo’. A notícia correu o mundo, como você pode ver nessa nota publicada na época por um grande portal brasileiro. Posteriormente, graças a investigação do diretor Paul Berczeller, foi descoberto que Takako tinha viajado ao país para se encontrar com seu amante, um empresário americano casado, depois de perder seu emprego em Tóquio. Deprimida com a demissão e com a rejeição, Konishi cometeu suicídio com uma overdose de álcool e sedativos. A tese foi confirmada quando descobriram uma nota de suicídio enviada a sua família, além de um registro telefônico onde ela falava pela última vez com seu amante.


Fim dos spoilers


Enfim, Kumiko é um filme precioso. Bem realizado, com uma protagonista extremamente competente e uma série de significados e interpretações, além do projeto em si ser curioso e quase metalinguístico. Um filme no qual eu apostava desde seu anúncio (clique aqui para ler), e que se mostrou melhor do que o esperado.

0 Total Views 0 Views Today
Avaliação.
Ótimo

Vinicius Salazar

Co-criador e palpiteiro do TaxiCafe. Editor do Podcast Chutão.

More Posts

Follow Me:
TwitterFacebook



Está no seu momento de descanso né? Entao clique aqui! À toa na Net - Agregador de Conteúdo
Total