MARVELS-JESSICA-JONES

No último dia 20, estreou no Netflix a segunda das quatro produções do serviço em parceria com a Marvel que estão programadas. Jessica Jones tinha a responsabilidade de manter o alto nível de qualidade de Demolidor, sem contar, porém, com uma protagonista tão famosa quanto o homem sem medo. Mas a Netflix sabe o que faz, e o que poderia ser encarado como um problema acabou por se tornar mais um dos tantos méritos da série.

Mantendo – e intensificando – o clima realista, sombrio e violento que já foi visto em Demolidor, Jessica Jones acompanha a personagem título, uma investigadora particular que possui algumas “habilidades” que utiliza para resolver seus casos, que não vão muito além de flagrar maridos e esposas infiéis. Jessica de cara mostra ser uma pessoa real, com problemas mundanos e comportamento ácido, forte e até intimidador. Apesar de seus poderes ela tenta levar a vida longe de grandes problemas, pelo menos agora. No passado, quando usava suas habilidades para fazer o bem, ela chamou a atenção de um homem extremamente perigoso, que a encontrou e a fez passar por coisas terríveis. Ainda lidando com o trauma causado por esse homem, a detetive começa a sentir que talvez ele esteja de volta, e em meio a seus conflitos pessoais, decide que é a hora de encarar os seus medos e se livrar de vez desse fantasma.

Apesar de, num espectro geral, a série Jessica Jones ser bem diferente de Demolidor, elas trazem algumas semelhanças interessantes. Entre elas a maneira de construir a origem desses personagens, trazendo á tona dúvidas e dilemas que surgem bem antes da decisão de se tornar, ou não, um super herói. Antes disso, tanto Matt Murdock quanto Jessica Jones, tem que descobrir (ou decidir) se são boas pessoas, se estão agindo “do lado certo”. Outra semelhança, que até está ligada ao item anterior, é o contraponto que vai oferecer essa reflexão. A existência de um antagonista forte o suficiente para oferecer esse problema é fundamental, e se Matt teve seus confrontos urbanos contra crime e máfia, além da imponente presença de Wilson Fisk, Jones tem um psicopata que a persegue como um espectro, e a figura de Kilgrave serve a esse propósito de maneira ainda mais intensa do que na série anterior.

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Seguindo na onda de “coincidências” entre os shows, temos o impressionante acerto na escolha de elenco. Krysten Ritter tem uma carreira formada por papéis coadjuvantes e/ou de cunho mais cômico, o que acabou causando certa desconfiança na época de sua escalação, mas seu desempenho aqui é tão bom que é difícil enxergar outra atriz nesse papel. Ela se entrega de fato, construindo uma personagem assombrada, amargurada e frágil, apesar da “brutalidade” ao tratar as pessoas. David Tennant, que não é um ator com quem eu simpatizo tanto, usa de uma de suas especialidades – a afetação – para formular o que talvez seja o melhor (ou pior?) vilão do universo integrado da Marvel. Destaque também para os coadjuvantes, Rachael Taylor, Eka DarvilleMike Colter e Erin Moriarty, que além de possuir ótima química com os protagonistas, são peças importantes para a trama. Uma pena que Carrie-Anne Moss e todo o seu arco seja mal ajambrado, sendo o núcleo destoante do show.

Não espere sequências de ação como as de Demolidor aqui, em quantidade e qualidade, o show vai pouco por esse lado. Isso por que a série é muito mais um suspense psicológico. A violência está presente aqui, de maneira gráfica em muitas cenas, mas principalmente de maneira subjetiva. Tortura psicológica, tensão e aflição são marcas fortes dessa primeira temporada. Isso traz alguns problemas é claro, sem a ação o ritmo dos episódios tende a ficar mais lento, e sem a existência de fillers temos a impressão de que treze episódios foram um pouco mais do que o necessário. Em alguns pontos o conflito emocional estagna ou retrocede de maneira inexplicável, o que acaba soando como enrolação.

Tecnicamente o show mantém o padrão Netflix de qualidade. A ambientação da Nova York soturna está mais uma vez precisa, apesar do ambiente não ser mais tão presente na trama como em Demolidor. Fotografia belíssima, que utiliza a paleta de cores para construir uma atmosfera quase noir. Trilha sonora impecável e uma abertura que é um show a parte.

Enfim, Jessica Jones reafirma a excelência da parceria Marvel/Netflix. Uma série densa, dramática, mas que não deixa de compactuar com o universo colorido e sem gravidade dos filmes do estúdio (inclusive temos referências por todos os lados). Uma trama relevante e bem estruturada, ainda que com algumas falhas no ritmo e nos diálogos. Um conflito crível e aflitivo para o espectador, que conta com a colaboração de um ótimo elenco. Uma série que tem tudo para agradar não só os fãs de filmes e séries de herói.

Nota: 8,5

 

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