Crítica: A Grande Aposta (The Big Short – 2015)

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Uma das características mais marcantes do sistema capitalista é conseguir subverter as noções de responsabilidade por suas atitudes nocivas e de natureza altamente criminosa. Como quando os especuladores quebram as regras na busca por lucros exorbitantes, e conseguem jogar a culpa no estado e em seus métodos de assistencialismo. Além de nos deixar profundamente revoltados com os melindres que envolvem o mercado, A Grande Aposta ainda consegue fazer rir enquanto botamos em xeque a maneira como olhamos para esse sistema um tanto quanto, duvidoso. Baseado em fatos reais o longa de Adam McKay conta a história das poucas figuras que conseguiram prever o colapso financeiro mundial de 2008, mostrando a maneira nada ortodoxa com que aqueles homens lidaram com essa valiosíssima informação.

Mesmo com a sinopse evocando praticamente um drama biográfico, o filme de McKay é uma comédia em praticamente todos os seus aspectos. Apesar de ter um roteiro bastante complexo, tratando de um tema que pra maioria das pessoas pode soar enfadonho, o filme se esforça para introduzir dinamicidade ao desenvolvimento, com uso de artifícios narrativos como quebra da quarta parede, além de uma montagem ágil e cheia de gracejos. Sabendo que as terminologias do mercado financeiro são de difícil acesso para o público médio, o texto trabalha com a ideia de que não é preciso saber de cada detalhe daquelas operações para entender o que está acontecendo e captar a mensagem do filme. Existe seriedade, é claro, especialmente com a apresentação das prováveis consequências para os atos daqueles personagens, vindo em forma de mensagens visuais ou frases e comentários mais ácidos.

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Mas existem alguns problemas também, a quantidade de personagens é um deles. Há algumas subtramas desnecessárias e mal exploradas, que apesar do esforço, não conseguem se conectar de forma satisfatória ao tema central da obra. Além do excesso de invencionices para tornar a obra acessível, que acabam soando exageradas. Essa tentativa de misturar didatismo com momentos cômicos para não perder o expectador mais leigo ou desinteressado, além dos plots paralelos acabam tornando o filme em si bastante inconsistente.

O elenco é bem extenso e tem desempenhos variados. Steve Carell volta a mostrar seu talento para papeis dramáticos, mesmo que aqui tenha um pé na comédia. Seu personagem serve como guia moral dentro da história e demonstra uma desilusão e raiva crescente, que representam basicamente a reação que temos frente à história. Christian Bale é outro que dá um show, com uma performance internalizada e minimalista ele constrói uma figura com poucas habilidades sociais, mas obstinada e inteligente. Ryan Gosling está bem no papel de narrador e banqueiro inescrupuloso, mas não apresenta nada que já não tenhamos visto. Todos os outros nomes no elenco são apenas funcionais.

Enfim, A Grande Aposta derrapa na tentativa exagerada de tornar palatável um tema tão complexo, além de ter um problema com suas várias subtramas, mas é bem dirigido, atuado e traz uma reflexão interessante. Uma comédia irônica e relevante que precisa ser vista.

Nota: 8,0

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