Crítica: Entre Nós | A melancolia das decepções que nos esperam

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Como é bom ver o cinema nacional sabendo explorar novos gêneros, com muita qualidade e talento. Em uma mistura bem feita de drama com mistério Paulo e Pedro Morelli, pai e filho, entregam um exemplar digno da crescente (ainda que lenta) evolução do cinema tupiniquim.

 

Felipe (Caio Blat), Lucia (Carolina Dickman), Silvana (Maria Ribeiro), Gus (Paulo Vilenha), Cazé (Julio Andrade) e Drica (Martha Nowill), são um grupo de escritores amigos que se reúnem em uma casa de campo para desenterrar uma cápsula do tempo feita dez anos antes, lá estão as cartas de cada um para sua versão futura, inclusive a do amigo morto em um acidente naquela época. Esse reencontro traz à tona recordações e marcas de uma época muito nostálgica, mas as revelações que essa reunião trará pode mudar para sempre a relação entre eles.

 

As qualidades do longa começam com a escolha da locação, a paisagem é lindíssima e tem muita importância no simbolismo da trama. O roteiro é repleto de pequenos insights muito singelos e interessantes e por meio de pequenos momentos consegue abordar assuntos muito perspicazes, como as esperanças nutridas pela ingenuidades da juventude e o posterior choque de realidade causado pelas desilusões que povoam o caminho da vida. Esses momentos podem ser observados graças ao desempenho soberbo do elenco, que tem uma química natural entre si, e individualmente todos conseguem transpassar toda a carga de experiência vivida.

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Existe sensibilidade até no jeito de filmar dos diretores, a juventude é mostrada com uma câmera livre que se movimenta bastante de acordo com a alegria do momento, enquanto que os momentos do reencontro trazem takes mais firmes, sisudos, com uma câmera estática implacável. Um cuidado estético que não se vê em qualquer produção.

 

No que diz respeito ao fio principal da narrativa, o mistério central da trama é um tanto quanto óbvio, mas seus efeitos em cada um e principalmente no grande interessado é muito bem construído, criando um ar de paranoia no personagem digno de grandes suspenses policiais. Mas o roteiro não isola o mistério central, ele dá o devido destaque a todos os personagens e as suas angústias particulares, como o casal que enfrenta o “dilema da maternidade”, ou o colega que se perde na própria ideia de fracasso, ou aquela que tem dificuldades de se conectar com o grupo graças aos percalços amorosos de sua história.

 

Enfim, Entre Nós é um filme melancólico e delicado, com um sub-texto muito melhor elaborado do que a própria trama central, um filme que diz muito sem usar palavras, com um elenco primoroso e uma execução ainda melhor. Sem ser piegas é um filme bastante reflexivo e até um pouco sentimental. É uma produção um pouco subjetiva e que talvez não agrade a todos os gostos, mas com certeza vale o tempo investido.

 

Nota: 8,0

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