Atualmente é muito raro se deparar com filmes de terror que valem realmente a pena ser vistos. Por isso, é sempre gratificante quando encontramos um exemplar que foge da mediocridade atual desse gênero.

A trama escrita por David Robert Mitchell parte de uma premissa bem curiosa: Jay (Mayka Monroe), é uma jovem de 19 anos que descobre que recebeu uma maldição ao transar com seu namorado pela primeira vez. Ela passa a ser perseguida por uma misteriosa entidade que está sempre caminhando em sua direção, e descobre que para fugir dela terá que passar a maldição adiante, do mesmo jeito que recebeu.

Logo de cara vemos de onde vem as inspirações de Mitchell, que além de escrever, também dirige o longa: John Carpenter, o mestre do terror e suspense oitentista pulsa na tela enquanto assistimos ao filme. A maneira de filmar, rodeando personagens e espiando cada canto dos cenários, além da excelente trilha sonora sintética que tem um ar psicodélico e abstrato, evocam a identidade do mestre e caem como uma luva na construção da obra. O tom abstrato, aliás, vai muito além da trilha. A natureza misteriosa da ameaça, além do clima atemporal desse filme, que possui tecnologias modernas misturadas com toda uma construção visual vintage, reforçam essa sensação e criam uma identidade própria para o projeto.

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Todos esses aspectos estão aliados a um trabalho de direção excepcional, com enquadramentos perfeitos e uma fotografia inspirada, que consegue encontrar beleza nos cantos mais obscuros do subúrbio de uma lúgubre Detroit. O elenco talvez seja o ponto fraco aqui, com exceção da protagonista, que manda muito bem na hora de demonstrar o peso e o terror de ser perseguida, os outros personagens são fracos e sem carisma. Tem que se dizer que os fãs de filmes de terror mais gráficos e intensos vão se decepcionar um pouco, ‘Corrente do Mal’ trabalha com construção de clima, um suspense crescente que combina com o modus operandi da entidade perseguidora. Quase não há jump scares aqui, e apenas uma sequência é mais “sangrenta” por assim dizer.

Existe um teor metafórico na obra também, apesar de ser fácil relacionar imediatamente o tema com o sexo sem proteção e DSTs (viés que perde a força com a “necessidade” de passar adiante), podemos ter uma leitura mais social, também, como se a premissa estivesse se relacionando com a perda da virgindade na adolescência e/ou durante a escola, tratando-a (puritanamente, é verdade) como um “peso” que os jovens (principalmente as jovens) vão carregar, e alegando que serão julgados por isso.

Enfim, ‘Corrente do Mal’ é um bom filme, mais suspense do que terror, eu diria, mas competente nisso. Com uma pericia técnica invejável e uma trama intrigante. O final pode não ser o mais apropriado, mas não tira os muitos méritos da obra. Vale muito a pena.

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Avaliação.
Ótimo

Vinicius Salazar

Co-criador e palpiteiro do TaxiCafe. Editor do Podcast Chutão.

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