Crítica: Boyhood | A magnífica trivialidade de uma vida qualquer

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Como é curioso o efeito do tempo, implacável e transformador. Sua devastadora e imparável passagem já foi documentada várias vezes e de diversos modos, mas no cinema não me recordo de alguém fazê-lo de maneira tão simploriamente encantadora como Richard Linklater em Boyhood.

 

Uma proposta simples, até aparentemente desinteressante, é o que cerca esse filme: Documentar o crescimento de um rapaz dos seus seis aos dezoito anos de idade. Nada de extraordinário acontecerá a ele, ele não será abduzido para anos mais tarde se tornar um fora da lei intergalático, nem descobrirá que foi selecionado para uma escola de magia e bruxaria em algum lugar da Inglaterra. Apenas levará uma vida absolutamente normal (seja lá o que signifique isso). Mas em contrapartida a trivialidade da ideia tivemos uma produção surpreendente e ambiciosa, que acompanhou seu elenco por doze anos afim de captuar de maneira intensamente realista sua evolução e amadurecimento.

 

Durante ás 2h45min de duração do filme acompanhamos o desenrolar da vida de Mason Jr. (Ellar Coltrane) e de sua família, com seus pais divorciados (Patricia Arquette e Ethan Hawke) e sua irmã Samantha (Lorelei Linklater). A história transcorre através de uma seleção de momentos aparentemente banais, mas que em conjunto formarão a personalidade de Mason e dos seus familiares também. Graças a um roteiro maduro e extremamente verossímil, acontecimentos comuns como brigas entre irmãos, as primeiras desilusões, o amor, o rompimento, um pai ausente, as broncas, o trabalho, o primeiro padastro, as responsabilidades e toda uma gama de situações experimentadas pela maioria das pessoas comuns, acabam ganhando um grande significado na experiência de vida de cada personagem.

Boyhood

Nossa identificação também se deve ao excelente trabalho dos atores, especialmente Patricia Arquette e Ethan Hawke, que encarnam seus papéis tão bem que acaba tornando tudo incrivelmente natural. Patricia começa como uma mãe muito jovem, um pouco perdida, mas vai crescendo com o passar do tempo, com uma incansável dedicação aos filhos ela alcança um bom patamar profissional graças a seu esforço. Também vemos nela, e nos filhos o peso de suas escolhas amorosas que não deram muito certo. Ethan também começa como um pai jovem, aventureiro e até um pouco imaturo e irresponsável, mas sua carga de experiência vai acumulando e seu desenvolvimento até chegar em um responsável pai de família é altamente palpável. O desempenho de Ethan é excepcional aqui, não que em outras ocasiões ele seja um mau ator, longe disso, mas é impressionante como Linklater consegue extrair dele as melhores performances.

 

Já que eu falei em naturalidade, vale citar também os lapsos de tempo nesse quesito. Não foi necessário verbalizar certas coisas para evidenciar uma evolução e/ou passagem de tempo, Linklater o fez de maneira sútil, além das mudanças físicas dos personagens, nos situamos no tempo ao ver a tecnologia, ao ouvir uma música e até com diálogos sobre a situação politica dos EUA. A fotografia do filme é simples, sem invenções mirabolantes, apenas o necessário. Linklater também reforça sua pericia técnica como diretor ao conduzir alguns plano-sequências maravilhosos, tal qual alguns da “Trilogia Before”.

 

O desenrolar de Boyhood acaba por evocar uma nostalgia no espectador, também. Principalmente lá pelo final, quando você se orgulha de Mason por ele ter se formado, sensação estranha para ter com um personagem, mas natural, afinal você o conhece desde garoto. Sem falar nas saudades antecipadas que sentimos ao perceber que ele está indo para a faculdade, e que consequentemente o filme está acabando. Vi algumas pessoas comparando com a sensação de acompanhar uma série por anos e estar se despedindo dela, muitos usando a série ‘Anos Incríveis’ como exemplo. É uma uma comparação extremamente válida, mas trazendo a uma realidade palpável a mim, foi como se despedir da saga Harry Potter, guardada as devidas proporções obviamente. Dizer que Linklater conseguiu fazer com seus personagens em três horas, algo comparável ao que uma série ou saga de filmes fez em anos ajuda a dimensionar o peso de sua história.

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Enfim, Boyhood é o ponto mais alto da ótima carreira de Richard Linklater, sua obra prima. Uma experiência cinematográfica indispensável, bem escrita, bem dirigida e muito bem atuada, com uma excelente trilha sonora que trabalha em favor da narrativa. Uma obra simples, mas grandiosa, encantadora e extremamente humana. O filme do ano.

 

Nota: 10,0

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