Crítica: Birdman | Críticas e homenagens do cinema para o cinema

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Michael Keaton iniciou sua carreira como ator em 1975, mas só em 1989 ele se tornou realmente relevante ao estrelar o primeiro “grande” filme de super-herói da história, Batman, papel que ele repetiu três anos depois. Desde então sua carreira foi de mal a pior com participações em filmes irrelevantes e sem nenhum apelo comercial, nem artístico. Quase 30 anos depois ele conseguiu provar que não é só uma celebridade, e sim um ator de verdade, com uma atuação impecável e premiada em um filme legitimamente valoroso.

 

Riggan Thomson, seu personagem em Birdman, vive o mesmo dilema, há mais de 20 anos ele interpretou pela última vez o super-herói do título e desde então viu sua carreira desabar, a ponto dele precisar apostar suas últimas fichas em uma peça de teatro que ele adaptou e que dirigirá e estrelará. O roteiro escrito a oito mãos coloca o espectador para acompanhar essa jornada de auto-validação do personagem, em meio a uma fina ironia e altas doses de crítica a uma indústria (e um mundo) que aparentemente erra na hora de dar valor as coisas certas.

 

O time de roteiristas formado por Nicólas Giacobone, Alexander Dinelaris Jr., Armando Bo e Alejandro González Iñarritu, que assume a cadeira de diretor, nos coloca nos bastidores de uma produção teatral enquanto disparam suas auto-reflexões sobre o mercado em que se encontram, questionando entre outras coisas o valor que a arte tem em lugar onde as pessoas preferem o espetáculo vazio e espalhafatoso. Questionam também o papel do crítico nessa indústria, aquele que tem como função enriquecer o conteúdo e proporcionar a reverberação de um debate, mas que ás vezes se perde em suas frustrações e deixa picuinhas contaminarem o seu trabalho.

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Inteligentemente o filme não oferece nenhum veredito acerca dessas discussões e críticas, em certos momentos ele iguala ambos os tipos de produção como se tivessem a mesma motivação por parte de quem a produz: ser aceito. É verdade que Iñarritu deixa escapar umas pitadas de “recalque” com o sucesso que os filmes de super-herói fazem, não só o gênero em si, mas no que diz respeito à facilidade que o cinema de entretenimento tem para ser abraçado pelo público, em detrimento do cinema de arte.

 

Além dessa gama de ironias e alfinetadas, Iñarritu faz o seu show em um dos mais fantásticos trabalhos de direção dos últimos anos. Com a trucagem do plano sequência infinito mais bem feito que eu já vi, as cenas se desenrolam com uma fluidez excepcional e o filme passa voando. Ele ainda brinca com uma espécie de metalinguagem musical e se a arte imita vida na escolha de Michael Keaton como protagonista, o que dizer de Edward Norton se divertindo ao entregar uma versão exagerada de si mesmo, que todos dizem ser um ator difícil de trabalhar, apesar do inegável talento.

 

Poucas vezes um filme consegue dar a todo o seu elenco a chance de brilhar em alguma cena, Birdman consegue, nenhum ator está ali por acaso, todos tem função na trama e a desempenham com uma qualidade ímpar. Em especial Keaton, que entrega uma performance arrasadora em todas as nuances de seu personagem, do diretor que busca manter o controle de sua peça, do ator que busca a auto-afirmação, do pai ressentido de sua falha com a família, da estrela que já não brilha mais, do homem perturbado que nasceu da convergência desses fatores. Das que eu já vi, é a atuação favoritíssima ao Oscar.

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Enfim, Birdman é uma declaração de amor de seu realizador para com seus colegas atores, também é uma crítica bem feita a indústria em que está inserido. Uma reflexão sobre a diferença entre talento e fama, e um pequeno estudo sobre o que é mais desejável. Uma comédia-dramática-de-humor-negro excepcionalmente bem feita, com doses de surrealismo e fantasia. Um filme preciso em praticamente todos os seus aspectos.

 

Nota: 10,0

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