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Quando se trata de religião e a dominação que ela exerce sobre seus adeptos é muito perigoso entrar em um campo polêmico e em que qualquer opinião pode ser motivo de revolta. Nunca encontraremos no mundo opiniões puras e livres de interjeição externa ou sujeitas a um limitado conhecimento de mundo, principalmente quando tratando-se de um assunto tão amplo e complexo quanto os cultos religiosos. Porém, algumas vezes, poucas vezes, encontramos visões tão singelamente construídas que torna-se difícil não levar essa visão como algo válido. É isso que a jovem cineasta turco-francesa Deniz Gamze Ergüven conseguiu fazer em seu novo filme Cinco Graças (Mustang, 2015), ao retratar tudo pela visão de crianças.

Tudo mudou num piscar de olhos.

Cinco Graças conta a história de cinco jovens orfãs que são “acusadas” de promiscuidade ao serem flagradas divertindo-se com um grupo de meninos na praia. Simples assim. Por essa brevíssima sinopse, mas não menor do que o necessário, é possível ver o peso que algo tão simples pode conter. Após serem rotuladas de promiscuas, perigosas, são trancafiadas em casa, aprendendo a “serem boas esposas”. Aprendem a cozinhar, costurar, enfim. O talento de Deniz em mostrar essas cenas, revoltantes por si só, torna tudo assustadoramente crível em algumas cenas. Sua direção e a fotografia de David Chizallet e Ersin Gok não são chamativas, não buscam para si o brilho, deixam o brilho para quem é retratada na obra, deixam o brilho para as mulheres. O roteiro, co-escrito pela diretora e por Alice Winocour, deixa suas personagens falarem, verbalmente ou não, de seus sentimentos, sua clausura, suas confidências. E é isso que nos tornamos ao assistir o brilhante elenco de jovens protagonistas: seus confidentes. As atuações de Günes Sensoy (Lale), Doga Zeynep Doguslu (Nur), Tugba Sunguroglu (Selma), Elit Iscan (Ece) e Ilayda Akdogan (Sonay) são realmente maravilhosas, cada uma delas dando a sua personagem características que as tornam únicas e ao mesmo tempo um ser só, apoiadas pelo também ótimo elenco de coadjuvantes, encabeçado por Nihal G. Koldas, como a avó das meninas. e Ayberk Pekcan, como o opressor  tio Erol.

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Na tortura em que vivem, mostrada principalmente através dos olhos da mais nova e mais rebelde, Lale, cada uma vai encontrando o seu destino, numa dança em que deveriam ser as condutoras, mas vêem o seu espírito ser abalado por casamentos arranjados e abusos constantes. A escolha de retratar a obra pelos olhos da mais nova das moças é extremamente feliz em dar sensibilidade e a singeleza acima dita. Mas a obra também é incisiva. Num plano, Deniz mostra o pedestal de religião que rege o vilarejo na imagem de um imponente minarete, mostra a paixão e o espírito inquebrável das meninas em um jogo de futebol com portões abertos somente para mulheres e, ao final, faz da prisão da meninas a sua fortaleza, num exercício de convicção e de resistência extremos. Deniz sabe a que veio e não tem vergonha de mostrar isso.

As falhas do filme residem no ponto do retratamento daquela realidade, mostrando eventos aleatórios na vida presa das jovens ao invés de exibir em continuidade o sofrimento delas, essa escolha acaba tornando a estória esparsa e por vezes repetitiva. Isso, porém, não tira a força do filme da estreante cineasta, que muito tem ainda à oferecer.

Por fim, ao término dos 97 minutos desse forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (representando a França) vemos que o pecado está nos olhos de quem vê, ou de quem escolhe ver somente o que deseja.

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