Chatô, O Rei do Brasil (2015)

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Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand, ou simplesmente Chatô. Um jornalista, empresário, político e magnata brasileiro, que entre as décadas de 40 e 60, foi uma das personalidades mais influentes do país. Uma figura controversa e anedótica cuja história baseou uma das produções mais conturbadas do cinema nacional, que mostra seu biografado (interpretado por Marco Ricca) como a estrela principal d’O Julgamento do Século, um programa de TV realizado bem no dia de sua morte. É nesse programa de auditório que Chatô repassa fatos marcantes de sua vida, seus amores, feitos, amigos e inimigos, e é por ele que o espectador conhece um pouco do caráter e da identidade dessa grande figura tupiniquim.

Vai ser difícil encontrar um filme com tanta brasilidade quanto Chatô – O Rei do Brasil. E não apenas em seus aspectos artísticos e cinematográficos, mas em toda a sua essência, desde seu anúncio, passando pelas interrupções na produção, pelos imbróglios financeiros e judiciais, até seu restrito lançamento, quase 20 anos após o inicio da produção. Por isso é tão difícil dissociar o filme de seus bastidores. Todos os melindres dessa produção acabam se entrelaçando com a história do seu biografado, transformando esse microcosmo em uma obra cem por cento brasileira.

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O filme de Guilherme Fontes foge dos esquemas típicos de biografias brasileiras, chapa branca e com um modelo narrativo engessado na cronologia dos “fatos”. Aqui não, conhecemos Chatô em uma história não linear, fragmentada, mas estruturada não na intenção de elencar acontecimentos marcantes, e sim de estudar o caráter e a natureza de suas ideias e ações. Essa escolha funciona bem, ela dá dinamismo ao filme ao mesmo tempo em que “disfarça” sua idade. O longa é enérgico e visceral, alegórico e com um senso de humor tipicamente brasileiro. Com ares de chanchada nos entrega um protagonista forte, obstinado e fiel a seus objetivos, por mais mesquinhos e tortos que esses possam ser.

Sua trajetória é recontada por meio de sua movimentada vida amorosa, seus dois casamentos e seu relacionamento com Vivi Sampaio (Andrea Beltrão). O problema é que para essa escolha funcionar melhor, era necessário um maior desenvolvimento das personagens femininas, especialmente suas duas esposas, vividas por Letícia Sabatella e Leandra Leal, o que não acontece. As personagens são escanteadas para dar atenção ao triângulo entre Chatô, Vivi e Getúlio Vargas, que ocupa boa parte do roteiro. A rivalidade com o personagem de Gabriel Braga Nunes também perde espaço para esse plot, tornando algum dos desenrolares menos relevantes do que deveriam. No quesito atuações Marco Ricca vai muito bem na pele de Chatô, um jagunço letrado ciente de suas origens e de seu destino. Paulo Betti interpreta um Getúlio Vargas caricato, mas convincente, que se enquadra com a proposta do filme. Dentre os coadjuvantes, Beltrão e Braga Nunes mandam bem, apesar de seus personagens não serem tão bem desenvolvidos.

Um Cidadão Kane á brasileira, frenético, farsesco e narrativamente inventivo, Chatô não faz jus aos 20 anos de expectativa, mas suas boas ideias e sua safadeza tipicamente brasileira fazem dele um filme acima da média, que com certeza merece entrar na sua lista. Tem no Netflix.

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