“Eldon Chance, neuropsiquiatra, destro de 55 anos. Recentemente ele percebeu que seu estado mental atual é sombrio e instável, ele teme ter sido atraído ao precipício de uma nova realidade, e uma vez tendo tropeçado nela, ele está incapaz de evitar a queda.”

House MD é um exemplo de série cultuada e popular que não me pegou. O pouco que vi achei chatíssima, tanto a estrutura quanto o personagem principal. Nosso santo não bateu. Então quando li a sinopse básica de Chance, nova série do Hulu, fiquei com os dois pés atrás. Série cujo título é o nome do protagonista, que é médico aparentemente fodão e interpretado por Hugh Laurie. Já vi esse filme antes, lá vem mais uma mistura de drama médico com procedural de investigação. Nada de novo no front, certo?

Errado. Muito errado. Chance não é um drama médico e passa longe, mas muito longe mesmo de ser um procedural genérico. Na verdade se trata do melhor exemplo de um thriller noir que eu vi recentemente. Mas vamos contextualizar. Baseada no romance homônimo de Ken Numm, a série nos apresenta Eldon Chance, interpretado por Hugh Laurie, um neuropsiquiatria cujo trabalho é fazer uma espécie de triagem de pacientes, ele faz algumas consultas, define a patologia e indica o paciente para um médico e/ou tratamento mais adequado. Chance passa por um momento complicado de sua vida, está lidando com um divórcio pouco amistoso, sérios problemas financeiros, além de não saber exatamente como encarar o comportamento de sua filha adolescente. Como se não fosse suficiente, ao tentar ajudar uma paciente que apresenta transtorno de múltiplas personalidades e é vitima de um marido abusivo, Chance vira alvo de um policial inescrupuloso da cidade.

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Se houvesse uma cartilha de como fazer uma obra noir, Chance seria a transposição dela para a TV. Com exceção da fotografia em preto e branco – que não é exatamente uma regra – todos os elementos que fazem um noir estão aqui. O clima de pessimismo e desesperança, os personagens com uma ambiguidade moral que chega a dar medo, uma femme fatale, pessoas obcecadas, policiais corruptos, assassinatos. E esses elementos não estão jogados aqui, como uma simples colagem de referências ou algo do tipo. Chance tem uma história interessante a contar. E essa história é contada de forma inteligente, cadenciada, dosando as informações e construindo seus personagens de forma que, por mais que nos identifiquemos com eles, sempre nos mantemos em estado de alerta. A qualquer momento uma nova informação pode mudar o que sabemos e isso acontece frequentemente. É uma série de temas complexos, com uma construção sombria que escancara o senso de decadência que nos rodeia.

A maior riqueza da série são seus personagens, especialmente os quatro que são os motores da trama, Chance, Jaclyn, D e Raymond. Eles apresentam uma complexidade inquietante desde o primeiro momento em que aparecem e essa complexidade não é apenas uma pista falsa, que faz você ficar desconfiado simplesmente para manter o interesse na série. Ela é bem fundamentada, todos os atos, por mais questionáveis que sejam, tem uma motivação real.  A medida que a trama vai se desenvolvendo, nossa impressão sobre cada um deles vai mudando e quem é vitima se torna criminoso e vice-e-versa. É uma série que realmente mexe com nossa noção de moralidade, que realmente nos faz questionar se os fins justificam os meios.

O elenco também merece o devido destaque. Que ator fantástico é o Hugh Laurie, a construção de Eldon Chance é impecável, a “involução” do personagem é sentida no olhar, na postura, você percebe o homem definhando moralmente, você sente a sanidade abalada em cada reação, em cada movimento e em cada fio de cabelo que, aparentemente, vai desistindo no decorrer da série. Ethan Suplee interpreta o gigante D, que vai do adorável para o assustador em questão de segundos, mesmo mantendo uma expressão impassível na maior parte do tempo. Sua história é a mais intrigante da série, seu personagem tem muitas camadas e é bastante complicado entende-lo. Sabemos que o seu passado traumático é responsável por suas ações, mas é difícil conectar uma razão aos seus atos. Mesmo assim, D é o personagem mais carismático da série.

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Ainda temos Gretchen Mol, que surge como vitima indefesa e passa a se revelar muito mais do que isso. É muito bom vê-la como alguém que está constantemente impersonando alguém, e que sempre parece estar sendo pega na mentira e ativando um gatilho de improvisação. Outra personagem cheia de camadas. E por fim, o policial corrupto Raymond, vivido por Paul Adelstein, um homem perigoso e assustador, que tem menos construção do que os outros três, mas que ainda sim consegue se fazer notar.

Enfim, Chance é uma grande série, inteligente, bem construída e que realmente mexe com quem assiste. Tem pessoas de gabarito na produção, como Lenny Abrahamson, diretor de O Quarto de Jack, que produz e dirige alguns episódios. São dez capítulos na primeira temporada, e a segunda já foi encomendada para o segundo semestre. Veja sem medo.

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Vinicius Salazar

Co-criador e palpiteiro do TaxiCafe. Editor do Podcast Chutão.

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