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Todd Haynes começa seu novo filme, Carol (2015), com um plano-sequência mínimo, lento e atraente. Esse início mostra o tom da obra toda e serve como um aviso ao espectador: não é um filme rápido, intenso ou violento. É um estudo de personagem construído aos poucos, uma história de espera, de dúvida e de incerteza.

Eu não sei o que eu quero. Como eu poderia saber o que eu quero se eu digo “sim” para tudo?

Essa construção lenta também no roteiro de Phyllis Nagy, adaptado do romance de Patricia Highsmith, nos leva em uma jornada conjunta com as protagonistas. Estas, Therese e Carol, muitíssimo bem encarnadas pelas atrizes Rooney Mara (Os Homens que Não Amavam as Mulheres, A Rede Social) e Cate Blanchet (O Aviador, Blue Jasmine), conhecem-se em uma loja onde Therese trabalha e começam uma relação que inevitavelmente torna-se um romance, trazendo à tona inseguranças e problemas para ambas, inclusive para a mais experiente, que é casada, seu marido, Harge, também bem incorporado por Kyle Chandler (O Lobo de Wall Street, Super 8), e tem uma filha.

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O começo desse relacionamente não é povoado por problemas, mas por esperanças, talvez infundadas, das protagonistas, que não se importam inicialmente das “consequências” que sua relação pode ter. A primeira parte dos 118 minutos de filme é recheada de cenas instigantes e provocantes como o plano-sequência já citado, mostrando o florescer daquela paixão. Nesses pontos, Haynes filma pelos cantos, quase que escondido, filmando não a bela cidade em que vivem, mas através dela mostrando seus seres humanos, num paralelo interessante com o que Therese começa a fazer em suas fotografias. A fotografia de Edward Lachman é pesada, cheia, granulada em todos os seus 16 milímetros, enche o quadro com beleza e poesia, e a trilha de Carter Burwell preenche a obra completando essa atmosfera quase pesarosa, de incerteza, de não saber e não querer saber se o certo é o que está sendo feito.

Em um momento especial da exibição, quando as protagonistas finalmente realizam o que anseavam, o tom do filme muda. A fotografia ganha delicados tons de azul e a trilha sonora perde peso e dá lugar a músicas contemporâneas à história. Todd Haynes deixa de filmar através de janelas e vidros como faz nos momentos de contenção e de auto-repressão e em planos-detalhe filma cenas onde a verdade se mostra. Esses sensíveis momentos tornam o filme mais do que uma outra história de amor, fazem do longa uma experiência muito mais ampla e natural do que uma história comum.

Mas, o que poderia causar uma quebra de ritmo ou teor do filme é muito bem executado. A “volta ao normal” das protagonistas após esse momento acontece de forma impactante e agrega à fita um peso novo. Ao falar dos problemas que a relação de Therese e Carol começa a causar, não só dentro das duas, mas problemas que fogem ao particular, o filme é povoado dessa vez por pedidos de desculpas que principalmente Carol deixa claro que não se aplicam, que não há vergonha ou culpa em ser o que é.

A exploração que Haynes e Nagys fazem das vidas das personagens parece tomar muito mais do que a duração do filme, tamanha a habilidade dos dois em saber retratar momentos distintos com características próprias e densas, evitando quase sempre a repetição. A obra engrendece aos poucos ao apresentar a personagem de Sarah Paulson (Serenity: A Luta Pelo Amanhã, Amor Bandido), antiga conhecida de Carol, ao expandir o papel de Harge e ao mostrar, principalmente no primeiro ato, os “pretendentes” da bela Therese, dando veracidade a história e mostrando que elas não estão sozinhas no mundo.

Carol é a eterna história de amor, mas que quando contada dessa forma tem toda um importância acrescida. Mais um grande filme do último ano que merece apreciação.

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