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O Festival de Sundance sempre nos apresenta grandes filmes, infelizmente alguns demoram muito para chegar aos cinemas tupiniquins (quando chegam). Um desses casos da edição desse ano do festival é Calvary, drama religioso estrelado por Brendan Gleeson e dirigido por John Michael McDonagh.

O filme começa com o Padre James (Gleeson) ouvindo a traumática história de um fiel no confessionário, e ao fim da confissão o devoto faz uma grave ameaça: em uma semana ele voltará para matá-lo. Agora o pároco tem sete dias para por as coisas em ordem e decidir se vai se salvar, ou aceitar a penitência que lhe foi injustamente imposta. Nessa peregrinação rumo a seu destino, o clérigo vai se deparar e tentar interceder nas histórias particulares dos moradores de seu vilarejo, como a sua filha problemática (Kelly Reilly), seu pedante colega sacerdote (David Wilmot), um excêntrico milionário (Dylan Moran), um casal em crise (Chris O’Dowd e Orla O’Rourke), o inspetor da policia local (Gary Lydon), um escritor recluso (M. Emmet Walsh) e um médico ateu (Aiden Gillen) que vive provocando sua fé. Todos com suas particularidades, vícios e demônios, e que mesmo com pouco tempo de tela, são plenamente entendidos.

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Como é característico do diretor, todo esse percurso vem acompanhado de diálogos poderosos, profundos e muito bem escritos, além de certas doses de humor negro, muito bem colocadas. As atuações convincentes de todo o elenco colaboram com o entendimento de seus personagens, e o relacionamento que cada um tem com o Padre ajuda a estender e tornar ainda mais instigante a nossa tentativa de descobrir quem é o provável assassino.

Com essa gama de histórias conseguimos sentir o tom de crítica aos mais variados comportamentos e noções que permeiam a sociedade moderna, crítica não partidária diga-se, afinal temos pinceladas em temas espinhosos para a igreja católica, como a situação da igreja em si, a omissão com os casos de pedofilia, o debate sobre homossexualidade, adultério, matrimônio para sacerdotes, entre outros, sempre tratados de forma bastante humana.

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Brendan Gleeson está excepcional no papel do Padre James, entregando uma construção incrível para um homem compassivo, caloroso, mas ao mesmo tempo cansado, machucado e até impotente frente a sua função e condição. É impossível não compreender a história do Padre James como uma espécie de releitura dos últimos dias de Jesus Cristo, é claro, está explicito no título, mas mais do que isso, a missão, a consciência de que seu destino já está traçado, a força da fé para vencer a tentação, no caso a tentação de sobreviver, e a incomoda constatação de que o rebanho que você quer salvar, faz pouco caso de você, te julga e te condena.

Se utilizando muito bem dos quesitos técnicos, como a ótima fotografia ajudada pelas belas paisagens irlandesas, atuações honestas e um protagonista cativante, o longa cava seu espaço nessa temporada. Forte, com pitadas de mistério e humor, solene, altruísta e comovente, Calvary fala sobre fé, dedicação e propósitos e se consolida como um dos filmes mais interessantes do ano.

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