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Dois irmãos gêmeos começam a duvidar de que a mulher que retornou para casa e está com o rosto totalmente enfaixado devido a uma cirurgia seja realmente sua mãe. Imagine as possibilidades de um filme com uma sinopse assim. Em poucas palavras e com um bom trailer Boa Noite, Mamãe (Ich seh ich seh, 2014) atiçou a curiosidade de cinéfilos e de entusiastas do cinema de terror (ou suspense, ou horror) internet afora. O segredo de gerar medo está em provocar e trazer a angustia de não saber o que pode acontecer sendo que é possível acontecer algo horrendo, temível, pesadelístico. Isso Boa Noite, Mamãe já fazia antes do lançamento, mas, o que realmente importa, atemo-nos ao produto final.

Mas precisa acreditar que sou sua mãe!

Dirigido e escrito por Veronika Franz e Severin Fiala, a película já começa incomodativa em uma cena em meio a um milharal, mostrando os irmãos Lukas (Lukas Schwarz) e Elias (Elias Schwarz) brincando em um ambiente “não muito seguro”. Partindo daí, Franz e Fiala expõem a convivência dos dois irmãos, a proximidade e até a dependência de um para com o outro. Esse desconforto, essa dependência permeia todo o longa e embala a trama simplista. O fato de o roteiro ser minimalista (o que não impede que ele tenha problemas) mas instigante abre espaço para as tais possibilidades da obra, que começa como um thriller psicológico logo após a chegada da mãe (Susanne Wuest) e perigosamente avança distanciando-se disso.

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Os dois primeiro atos do filme são realmente ótimos, muito pela direção de Fiala e Franz, que exibem em quadros pensados o ambiente isolado em que os escassos personagens vivem, a arquitetura da casa onde moram e os próprios personagens principais em seus momentos conjuntos, e algumas pontuais câmeras subjetivas dão uma apreensão extra. A condução e trabalho de câmera impressiona e causa estranheza (nas paredes há quadros com imagens fora de foco, causando a mesma “desconfiança” presente em O Iluminado (The Shining, 1980), mas em menor escala, claro). A construção do filme e seu crescimento vão causando uma agonia no espectador que não é fácil de ser passada, mas os diretores austríacos o fazem com propriedade e economia de palavras. Isso complementado pela trilha sonora aguda de Olga Neuwirth nas composições e nos arranjos e a fotografia densa nos 35 milímetros de Martin Gschlacht torna até as mais simples e inocentes cenas em peças perturbadoras. A obra conduz o espectador em ondas de tensão e tranquilidade seguidas (previsivelmente) de mais aflição, numa instabilidade incômoda e inebriante através dos 99 minutos, nos quais não há momento sem som (por mais ínfimo e irritante que seja o som presente) mantendo a angústia fluida e natural.

A partir de certo momento, porém, o longa começa um descenso rumo ao comum que faz desperdiçar as possibilidades já citadas de um terror psicológico em um terror momentâneo. Por vezes, como que para agradar um público mais amplo, o filme disfarça clichês em sonhos e utiliza recursos de gore barato, dos quais, felizmente, consegue escapar pela maior parte do tempo. Ao inverter horror e horrorizado tenta flertar com questões sobre violência e sua fonte, sobre crueldade, e traz cenas excelentes nesses momentos, mas não passa de um flerte. Seu plot twist é o culminante dessa descida ao usual, sendo talvez previsível para aqueles que tentarem adivinhar o que ele traz mas não deixa de ser chocante e um pico também da angústia que o filme provoca.

Apesar de ter problemas, Boa Noite, Mamãe tem muito mais méritos do que defeitos. Sua direção primorosa e atuações extremamente competentes trazem cenas notáveis (a cena da tortura é algo excepcional e chocante ao extremo) e fazem do filme uma experiência valorosa e duradoura mas um pouco decepcionante pelo que poderia ter produzido se deixasse de lado uma parte do grafismo e se aprofundasse na complexidade psicológica.

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