Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice – 2016)

BvS-300

Visionário. Essa foi a alcunha dada a Zack Snyder após o seu segundo grande sucesso como diretor, o épico 300, lá em 2006. Hoje, dez anos após aquele lançamento, esse apelido já não é mais levado tão a sério, pelo menos não até a estreia de Batman vs Superman: A origem da justiça. E se naquela época o adjetivo lhe foi dado graças a sua inventividade visual, hoje pode ser atribuído pela capacidade de quebrar um modelo estrutural, narrativo e temático vigente em um dos gêneros mais populares da atualidade, o de super heróis.

Após uma sequência inicial visualmente inspirada e tematicamente esclarecedora, BvS recapitula os acontecimentos de O Homem de Aço do ponto de vista de Bruce Wayne, um reles mortal em meio a um embate de proporções mitológicas. Desses primeiros minutos podemos tirar a síntese do confronto prometido pelo longa de Zack Snyder, um herói humano quebrado e castigado pela sensação de impotência, contra uma figura mítica que ainda não compreende sua importância e suas responsabilidades para com a humanidade. É apenas o pontapé inicial de uma série de conflitos e traumas que vem a tona em um filme tenso, denso e relevante.

batman-v-superman-image-21

Do ponto de vista motivacional, o roteiro escrito por David Goyer e Chris Terrio é precioso. A chegada de Superman e seu destrutivo embate contra o General Zod, despertam em Bruce Wayne todos os seus traumas, que vão muito além da morte de seus pais, eles envolvem seus mais de vinte anos como vigilante em uma cidade criminosa, violenta e cruel; os aliados perdidos; e o ódio pela incessante sensação de impotência, no que diz respeito a morte, e especialmente no que diz respeito a ruptura, daqueles que viveram o suficiente para se tornarem vilões. Curiosamente, o medo dessa ruptura acaba por tornar o Batman de Ben Afleck menos humano, ele é violento, brutal e quase psicótico. E essas mazelas são refletidas naquela figura imponente e messiânica, que Bruce teme que siga o mesmo caminho, ignorando o fato de que ele mesmo já está seguindo. E é lindo ver o momento, já em meio a pancadaria, em que a figura messiânica, o alien, o miserável que trouxe a guerra até nós, devolve ao Batman sua humanidade.

Humanidade, palavra que resume os conflitos de Clark Kent e seu Superman. Sua relação com o tema é complexa, e o personagem não consegue resolver esse grande dilema. Seus poderes são quase divinos, mas ele ainda é um homem, filho de fazendeiros, com sentimentos, inseguranças, amores, então, o que fazer? “Se deus é todo poderoso ele não pode ser inteiramente bom, e se é inteiramente bom, não pode ser todo poderoso” diz Lex Luthor em determinado momento, e esse é o X da questão: ser todo poderoso ou ser inteiramente bom? Em ambos existe um ônus grande para o Superman, ou se distanciar da humanidade, ou se submeter as suas idiossincrasias e julgamentos. É um dilema difícil de quebrar, ainda mais sozinho, e é aí que entram duas figuras importantíssimas em sua evolução: Lois Lane e Martha Kent, as mulheres de sua vida, que lhe remetem ao que há de melhor na humanidade e que são fundamentais no alvorecer do Superman que conhecemos, e que não, ainda não foi mostrado.

20160310-maxresdefault

Lex Luthor é a última base que sustenta BvS em termos de história. Ele também tem seus traumas reacesos com a chegada de Superman ao planeta, mas de forma distinta. Seu personagem remete a outro vilão recentemente adaptado dos quadrinhos, O Rei do Crime da série Demolidor. Ambos passaram por uma infância de abusos que geraram sequelas psicológicas gravíssimas, entre elas um desejo quase patológico por controle. E ambos são afetados de forma semelhante pelo surgimento de um herói – guardadas as devidas proporções. O trauma de Lex move seu ódio à figura heroica e divina vista em Superman, ele se apega de forma implacável a ideia de “desmascarar” essa falsa deidade, que baseada em sua própria experiência de vida, é incapaz de salvar a todos. E quando somamos suas perturbações, traumas e psicopatias com sua genialidade, temos uma espécie de terrorista insano e perturbado, com altíssimas capacidades manipulativas, mas sem nenhuma noção de gravidade, o que traz consequências devastadoras para esse mundo.

Em meio ao intenso choque entre essas três figuras, temos pequenas surpresas e presentes também, como a rápida, porém pontual e grandiosa participação de Diana Prince, a Mulher Maravilha. Em poucas frases, gritos e sorrisos, Gal Gadot destrói qualquer desconfiança sobre sua escalação, além de estabelecer sua personagem, mesmo sem apresenta-la, de fato. Não apenas a sua, mas a aparição dos outros membros da Liga da Justiça não é descontextualizada ou gratuita, ela é bem estruturada e arquitetada de forma que convence o espectador de sua existência naquele universo, além de despertar interesse para o futuro desses personagens. Temos também o Alfred de Jeremy Irons, preciso em suas participações, inclusive como um discreto alivio cômico.

wonder-woman-in-batman-v-superman-dawn-of-justice-hd-wallpapers

Batman v Superman não é conduzido de forma convencional em termos narrativos, a história é apresentada de forma fragmentada, exigindo um pouco mais de atenção e engajamento do espectador. Essa escolha narrativa contribui para a fluidez do desenvolvimento de todas as subtramas, sem criar “barrigas” na história. É um filme longo, porém graças a escolha de não mastigar e explicar todos os acontecimentos, o tempo é bem dividido entre desenvolvimento de personagens, andamento da história e sequências de ação, conferindo uma boa noção de agilidade ao filme.

A ação do filme é espetacular, diga-se. As cenas de luta do Batman são algo nunca visto em versões live action do personagem, é incrível. O combate entre ele e Superman é fantástico, uma pancadaria franca, grandiosa e verdadeira, digna de aplausos, e o embate final, com a trindade lutando lado a lado, ao som de uma trilha sonora espetacular é praticamente indescritível, de fazer pular até o mais blasé dos fãs. Um fã como Zack Snyder, aliás, que consegue levar para a tela do cinema o que há de melhor no universo dos heróis, e não me refiro apenas aos quadrinhos. As referências as HQs estão aqui em abundância, de O Cavaleiro das Trevas a Flashpoint, de O Legado das Estrelas a Paz na Terra, mas também temos momentos que remetem as animações, desde as mais recentes, até as obras primas de Bruce Timm. Temos muito dos games também, inspirações da série Arkham e de Injustice são sentidas facilmente. É impressionante como o diretor consegue selecionar o que de melhor funciona em cada mídia e transportar para as telonas de forma mágica.

Batman vs Superman funciona em todos os aspectos, é visualmente maravilhoso, tem um elenco impecável, personagens relevantes e bem conduzidos, cenas de ação alucinantes, um roteiro maduro e bem estruturado, além de assentar o solo para um universo muito promissor. Mas é um filme que vai sofrer, pela sua coragem em ser diferente e por não respeitar as convenções e os modelos de seu gênero. Zack Snyder pode não ser um mestre da sétima arte, mas é quem melhor a uniu com a nona arte. Com certeza será muito criticado, por inovar, por arriscar, mas é isso que faz dele um visionário.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça é um filme único e grandioso.

0 Total Views 0 Views Today
  • Luiz Guilherme Silva

    Foi exatamente o que senti quando assisti, só discordei com uma coisa: Zack Snyder é sim um grande mestre! Ele é insano e onde as pessoas vêem o erro dele, não você, eu vejo arte, coragem e inovação! No mais ótima crítica, conseguiu retratar os meus sentimentos sobre o filme <3

  • miltonsalles

    Concordo totalmente.
    Posso dizer que BvS é meu filme de Herói preferido com meus Heróis preferidos.
    O filme distribuí o tempo perfeitamente, evitando aquele tempo de ação cansativa que vimos no Homem de Aço, ou frequentemente em Michael Bay e Marvel.

    Eu realmente achei o filme incrível.

  • Anderson Butilheiro

    Até que enfim uma crítica que vê o produto, e não os produtores. O filme é grandioso e ousado, mas entrega exatamente o que se espera dele. Há quem diga que o filme é cheio de falhas e que a direção de Zack Snyder é ruim se você analisar criticamente. Minha resposta a partir de agora será esse texto!

    Parabéns, meu caro!

  • Pingback: High-Rise (High-Rise - 2015) - TaxiCafé()

  • Pingback: Esquadrão Suicida (Suicide Squad) | Veja aqui todos os trailers - TaxiCafé()

  • Pingback: Esquadrão Suicida (Suicide Squad) | Crítica - TaxiCafé()