Aquarius e os erros do Brasil na busca pelo Oscar

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A última vez que o Brasil teve um representante na disputa do Oscar de melhor filme em língua estrangeira foi em 1999, com Central do Brasil, que perdeu a estatueta para A Vida é Bela. Foi definitivamente um ano estranho na academia, não só pela ilustre presença de um representante tupiniquim na disputa, mas por que foi o ano em que colocaram algo na água dos votantes, que entre outras coisas, decidiram que Shakeaspeare Apaixonado era um filme melhor que O Resgate do Soldado Ryan e Além da Linha Vermelha, que Gwyneth Paltrow teve um desempenho melhor do que Cate Blanchett, Fernanda Montenegro e Meryl Streep, que Roberto Benigni atuou melhor em A Vida é Bela do que Edward Norton em A Outra História Americana…

É, foi um ano bem estranho.

Mas não estou aqui pra falar da brincadeira de mau gosto que foi essa edição do Oscar, e apesar do título desse post, também não estou aqui para comentar a escolha de Pequeno Segredo em detrimento do elogiadíssimo Aquarius como representante brasileiro ao prêmio dessa temporada. Creio que a esse respeito tudo que precisava ser dito já foi dito: em resumo, o filme de Kleber Mendonça Filho foi boicotado por motivações politicas. Não há muito mais a teorizar sobre isso. A questão que eu quero levantar aqui é que não é a primeira vez que o comitê formado pelo Ministério da Cultura erra feio na escolha do nosso representante, e apesar de o debate politico ter se tornado bastante efervescente nos últimos anos, não é a primeira vez que a escolha tem motivações politicas, ou até de outras naturezas, disfarçadas de critério cinematográfico.

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Voltemos para 2001, onde o escolhido pela comissão foi Abril Despedaçado, do diretor Walter Salles. Apesar da qualidade incontestável do filme de Salles a escolha levantou dúvidas, primeiro por concorrer com o excepcional Lavoura Arcaica, obra prima de Luiz Fernando Carvalho, e segundo por fatores alheios a sétima arte, muitas delas ligadas aos integrantes da comissão. Não que a idoneidade dos integrantes, que incluíam cineastas, críticos e jornalistas, fosse contestada, apenas o nível de envolvimento que eles tinham com os concorrentes. Soma-se a isso o prestigio que Salles já tinha no circuito internacional, afinal, foi com ele que o Brasil emplacou seu último candidato, o já citado Central do Brasil, era uma obra que tinha certa vantagem.

Além disso, foi nesse ano que se levantou pela primeira vez o fator representatividade da comissão. Um país de proporções continentais como o Brasil, e que possuí produção cinematográfica de Norte a Sul e de Leste a Oeste, não poderia ter seu representante selecionado pelo crivo de meia dúzia de representantes vindos quase todos do sudeste, quase que especificamente do eixo Rio-SP. Questões de cultura, vivência, linguagem e outros detalhes, colocariam automaticamente representantes do norte, nordeste, sul e centro-oeste em desvantagem. Não por desonestidade, mas por identificação. Não á toa o roteirista Luis Bolognesi sugeriu á época uma nova forma de se escolher a comissão: “Por isso, para os próximos anos, precisamos refletir melhor e promover um debate mais aberto sobre os critérios de escolha. Uma comissão com mais participantes, convidados de diversos pontos do País, é uma das soluções”.

Dois anos depois, outra escolha questionável. Dessa vez os motivos são mais subjetivos, mas mostram um certo desconhecimento da comissão a respeito dos gostos da Academia. Em 2003, um ano antes, Cidade de Deus foi escolhido e depois descartado na fase final, um dos argumentos foi que o filme era sujo demais, violento, características que sabidamente não agradam os votantes. Depois de um argumento desses, qual a lógica para escolher um filme com características tão semelhantes, alegando uma suposta “maior comercialidade” da obra de Babenco. O pior não é isso, o pior é que Carandiru desbancou O Homem que Copiava, de Jorge Furtado, esse sim um filme comercial, além de original e diferente do que era oferecido no cinema nacional naquela época. Um claro erro de estratégia ou uma desculpa muito da esfarrapada?

Em 2005 foi a vez de Olga representar o cinema brasileiro na academia, em uma escolha que despertou vários tipos de dúvida. O longa foi dirigido por Jayme Monjardim, diretor de novelas da Rede Globo, o que levantou a primeira suspeita. A segunda jogada suspeita foi usar o tema como critério, afinal, Olga mescla cinebiografia com tragédias do passado, assunto muito apreciado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, como já discutimos aqui. Esse argumento seria plenamente aceitável, se Olga não tivesse desbancado Redentor, de Claudio Torres, obra cinematográfica mais encorpada e com muito mais “cara de Oscar”, sem falar na relevância social (e na cara de minissérie da Globo que Olga tem). Pode ser que esse caso especifico tenha mais a ver com minha afinidade com a obra do que com outra coisa, mas é uma discussão válida.

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O último exemplo que eu quero citar aqui tem justamente a politica como plano de fundo. Lula, o Filho do Brasil, foi o escolhido no ano de 2011, o que nos leva a uma situação oposta a que vivenciamos em 2016, onde quase tudo se resume ao foi golpe x não foi golpe e a figura do comandante do país está totalmente conectada a escolha do filme representante. Se em 2016 os “Fora Temer” de Kleber Mendonça e equipe foram claramente determinantes no boicote a Aquarius realizado pelo comitê do Ministério do atual presidente, a aprovação recorde de Lula em 2010 e a vitória de sua sucessora nas eleições, claramente influenciaram na escolha da cinebiografia do ex-presidente.

E aconteceram reclamações “do outro lado”, assim como acontece com Aquarius, elas só não geraram tanto buzz por causa da maior estabilidade politica na época, e também por que não havia na disputa um candidato tão incontestável quanto temos hoje. Sejamos francos, o filme de Lula não é ruim, mas em “condições normais” ou com critérios puramente artísticos ele provavelmente não seria escolhido.

A questão aqui é: o cinema, como qualquer outro tipo de arte, não é apolítico. As obras tem temas e discussões que dizem muito sobre seus realizadores e sobre o contexto de sua produção. Usar a arte como bandeira ou porta-voz de ideologias, não só é válido, como natural e imprescindível. Usar a politica para delimitar, censurar e categorizar a arte, é grosseiro, sujo e desonesto. E fazer isso, infelizmente, não é prática nova por aqui. Para nenhum dos “lados”.

Se há alguma conclusão que pode ser tirada disso tudo é que os critérios e as comissões devem ser repensadas. No que diz respeito à produção e distribuição, a arte deve ser livre de amarras politicas e de travas comerciais. Precisamos de uma comissão representativa, com integrantes dos quatro cantos do país, sem restrições nem complôs políticos e o principal, que se preocupe mais com o que o cinema nacional tem de melhor a oferecer, do que com o que os membros da Academia supostamente querem ver.

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  • Chamar AQUARIUS de filme é uma irresponsabilidade muito grande! É um mico! E dos grandes! Tem medalhões trabalhando nele e um nota preta foi gasta para fazer uma porcaria! Melhor seria indicar qualquer filme de Halder Gomes (Cine Roliúdi, Área Q) um diretor cearense (o melhor do país atualmente! E premiadíssimo em todos os festivais que participou pelo mundo!)completamente ignorado pela grande mídia e os pseudo-intelectuais de verve esquerdista que assolam o país! O Filme que-não-devemos-dizer-o-nome por que é tão ruim que prá ficar péssimo tem que melhorar muito! Foi uma mistura de nada com coisa nenhuma! Um verdadeira produção de fachada que tentou ser reconhecido em Cannes com um viés político e tentou ir para o Oscar da mesma maneira e não conseguiu! Não conseguiu por que é ruim demais! Uma porcaria só isto! Mas…é da turminha da esquerda-de-botequim então tem que forçar a barra!