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O americano do qual pouco se sabe chega ao sexto longa-metragem com Amor Pleno. Terrence Malick pavimentou sua trajetória com obras de arte de encher os olhos, o coração e a mente. Ajudou a construir a história da estética cinematográfica americana, e do mundo, já em seu segundo filme, Cinzas no Paraíso em 1978. Quatro anos antes havia demonstrado seu talento com Terra de Ninguém, aprofundando-se na fuga e busca da liberdade pela natureza. Esse tema foi recorrente em sua brilhante carreira, mostrando em 1998 com Além da Linha Vermelha um novo olhar sobre a guerra, com múltiplas visões e conversações sobre a angústia individual em meio a angústia global. Em 2006 com o mediano O Novo Mundo explorou novamente a natureza e a civilização em seus anseios por liberdade e amor, chegando em seu ápice em 2010 com o nada menos que brilhante A Árvore da Vida. Mas em Amor Pleno, parece que estamos vendo somente uma sombra do que o artista já fez.

É muito difícil ser o que ama menos, o que é mais forte. Você deve lutar consigo mesmo. Você deve lutar com sua própria… força.

A história em si é resumível: um casal, Neil e Marina, interpretados por Ben Affleck (Argo, Garota Exemplar) e Olga Kurylenko (007 – Quantum of Solace, Oblivion), que nas lentes de Malick tem uma delicadeza e beleza estonteantes, se apaixona em Paris, muda-se para os Estados Unidos e lá começam os conflitos internos e externos de cada um, onde há também um incrédulo pastor, interpretado por Javier Bardem (Onde os Fracos não Têm Vez, 007 – Operação Skyfall), e uma personagem do passado de Neil, Jane, representada por Rachel McAdams (Questão de Tempo, Meia-Noite em Paris). Mas a “história em si” nunca foi o ponto de força de Malick, e sim o que essas histórias mundanas acarretam intrinsicamente aos seus protagonistas, as questões levantadas por esses eventos comuns.

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Inicia-se o longa com pensamentos sobre o amor. Marina se vê confusa e apaixonada por Neil, lutando com suas agonias sobre o seu amado. Apesar de estar vivendo uma paixão, sente-se sozinha e isolada (quando está literalmente sozinha fala em sua língua-mãe). Neil parece não saber como se portar com Marina e com sua filha, Tatiana (Tatiana Chiline), é apático, todavia não é possível saber se o seu personagem é assim ou se a atuação de Ben Affleck está abaixo do necessário. A premissa contém uma profundidade coerente com as obras anteriores de Malick, pondo em primeiro plano as questões a serem ponderadas pelo resto do filme, nesse sendo o amor e sua necessidade. Questionamentos esses que são os mesmos do Pastor Quintana (Bardem), que se pergunta sobre sua devoção e se vê perseguido pela própria fé, angustiado por fingir sentimentos que não sente realmente e oprimido pela simplicidade das pessoas de seu local enquanto ele tenta racionalizar e acaba complicando sua crença. Seu calvário é sobre Deus. O paralelo estabelecido entre o amor e Deus, representado na fé de Quintana, é muito interessante, com os personagens de Kurylenko e Bardem inquirindo-se sobre a presença sensível de ambos, sobre estarem cercados pelo amor e por Deus, mas mesmo assim não poderem vê-los, não poderem tocá-los concretamente. Os dois são tênues em sua existência e essa suavidade requer dos dois personagens um esforço impossível de ser feito sozinha para ela, e um esforço que o segundo não sabe se quer continuar a fazer. Ambos esperam por um sinal, por uma dádiva, uma visão que lhes diga que tudo está bem, pois já cansaram de fazer e não receber.

As relações entre as pessoas são expressivas, tanto na casa do casal principal, onde Neil encontra problemas em se relacionar com Tatiana e transfere sua dificuldade para Mariana, quanto nas interações do pastor com sua cidade, vazias e muitas vezes só de aparência, sendo nesse caso o personagem apático, e não a atuação coerente de Javier Bardem o fator para isso. Mas o lugar comum chega a um ponto incomodativo para a trama, onde os personagens perguntam-se, sussurram sozinhos em seus quartos, mas não avançam. Os únicos que revelam algo perto de uma atitude são Neil (Affleck) e Jane (McAdams), com seu reencontro e reinício de seu caso amoroso. Porém, o marasmo da atuação de Ben Affleck acaba por prejudicar a desenvolvimento de seu personagem, que além de não conseguir o certo em casa vê-se em confronto com a comunidade em que vive, e aparenta ser a causa ou o bode expiatório de todos os problemas, e a personagem de Rachel McAdams é subaproveitada na trama, tendo um final não digno de sua capacidade. A relação entre o pastor e os demais protagonistas também mostra-se fraca, fazendo o filme parecer um longa feito em capítulos, com recortes de cada história, ficando a interação entre esses tão intangível, a não ser em um momento, quanto a presença de Deus e do amor.

A demonstração da sociedade daquele local é pertinente. Quando o casal e a filha de Marina chegam na “América” vão para um supermercado super-limpo, mas a cidade em que moram sofre com a poluição pesada, com a terra que não recebe bem intrusos. Isso, porém, deveria servir como o pano de fundo alegórico da trama em primeiro plano, mas esta mostra-se tão desinteressante com seus personagens que não vão a lugar algum que o “pano de fundo” tem o mesmo destaque que ela.

Os belos visuais são onipresentes na filmografia de Malick e estão presentes em Amor Pleno. A fotografia do espetacular Emmanuel Lubezki talvez seja o maior atrativo da obra. A trilha sonora de Hanan Townshend é também muito competente e apreensiva, mas falta aquilo ao qual elas devem complementar. O roteiro parece recortado e mostra um Terrence Malick ou perdido em sua filosofia ou com problemas para ligar uma coisa à outra em algo harmônico, contudo sua direção é intrigante e original como sempre.

O que resulta disso é um filme mal aproveitado com tudo que promete em suas primeiras partes, um filme que diz e não entrega, ao contrário das outras obras do diretor e roteirista. Terrence Malick parece se auto parodiar com seus personagens que falam pelos cantos, mas que não evoluem. Ao tornar análogas a pequena cidade em que vivem as suas figuras e a vida como um todo e ao equiparar os problemas amorosos de Marina com os conflitos dela perante Deus, o autor teve em suas mãos um bom axioma, mas que acaba por não ser bem desenvolvido. O que vemos é um filme com várias qualidades nas suas metáforas e representações, mas que diversas vezes repete o mesmo que foi ponderado em A Árvore da Vida, porém sem a mesma qualidade. Um filme tão belo quanto seus protagonistas, mas tão problemático quanto eles. Ao fim, uma obra insatisfatória, pequena e opaca diante dos prévios trabalhos de Terrence Malick.

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