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No topo de um monumento americano , o Philippe Petit de Joseph Gordon-Levitt (A Origem, Looper: Assassinos do Futuro) conta a história de como deu alma à seu sonho e para outro monumento americano. Olhando para nós, o carismático ator nos provoca simpatia em dois minutos de tela. Petit sonhava em atravessar o vão entre as torres do World Trade Center em uma corda bamba, puramente pelo desafio e pela sua arte.

Eu meu encontro no meio do arame. E eu sinto o vazio. E mesmo que um equilibrista nunca deva olhar para baixo… eu olho. E foi… foi lindo. Estava tão calmo e bonito, e sereno, e não-perigoso.

Em A Travessia (The Walk, 2015), Robert Zemeckis e Christopher Browne, adaptando o livro do próprio francês, tentam explorar em roteiro as raízes da paixão de seu objeto protagonista e adicionam poesia em cada cena, nos mostrando um “herói” às antigas, mais ingênuo, puro e divertido do que os conturbados protagonistas recorrentes atuais. Usando de fórmulas batidas porém eficientes, a obra entrega cenas atraentes pela simplicidade e pela facilidade de serem acompanhadas, resultando em um divertimento sadio e que deixa um sorriso no rosto por boa parte de suas quase duas horas. Como exemplo, há um romance chavão entre Philippe e Annie (Charlotte de Bon, de Yves Saint Laurent e A Espuma dos Dias) logo no início da fita, mas isso se resolve rapidamente e deixa espaços para a trama seguir seu melhor rumo, no melhor de um feel good movie.

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A direção  um tanto “fora da caixa” de Bob Zemeckis é vistosa, mesmo que algumas cenas resumem-se a chamarizes para certos formatos específicos de cinema, acrescentando à denúncia daqueles que taxam o cineasta como puramente técnico/visual, e não como um contador de histórias. Mas com movimentos precisos de câmera, Zemeckis consegue criar tensão e graça de formas singulares e recompensadoras. O roteiro também derrapa em seus pés ao adicionar problemas de forma repentina e não gradual, dando aquela impressão de “veio do nada”, ao contrário da sequência final (maior parte do filme), que é desenvolvida degrau por degrau e prende a atenção durante toda sua extensão. As atuações são bem colocadas e desenvolvem as personagens de forma natural, com destaque para a magnética atuação cheia de sotaque de Gordon-Levitt e de Ben Kingsley (Ghandi, A Invenção de Hugo Cabret) que encabeça um ótimo elenco de coadjuvantes como o mentor de Philippe, Papa Rudy.

Os destaques são as (vertiginosas) imagens. Na sequência final há planos amplos de tirar a respiração que adicionam beleza à tensão. A direção de Bob só acresce à maravilhosa fotografia na execução de Dariusz Wolski preenche os quadros com profundidade e densidade espetaculares, principalmente nos tais planos aéreos amplos. Surpreendentemente, a música do sempre excelente Alan Silvestri não tem nada de destacável, sendo as melhores partes da trilha alguns arranjos de clássicos.

Apesar de falhar em alguns lugares, A Travessia se mostra uma ótima peça biográfica (fidelidade fica à prova) que usa e abusa de recursos cinematográficos para criar uma experiência sensorial, mesmo que isso denigra sua “contação de história”. É muito agradável acompanhar seus personagens e as tensões do final são gratificantes. Philippe Petit foi alto o suficiente para não ouvir mais os sons do fracasso e A Travessia o homenageia muito bem.

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  • Fernando

    Ótimo Filme.